13 janeiro 2007

Paraninfo: Discurso

Retornando às atividades do blog, começo o ano com um grande orgulho. Ontem, 12 de janeiro, fui homenageado e escolhido para ser paraninfo da turma de formandos de Informática e Ciência da Computação. Durante o ato solene, proferi o discurso que transcrevo abaixo, na íntegra.

Sempre que vejo entrar uma turma de formandos de Computação, relembro-me da emoção que experimentei quando, na minha querida Juiz de Fora, ocupei um lugar de honra semelhante aos que meus afilhados tomam para si agora. Afirmo de coração: é incalculável e indescritível esta sensação, o amor que sinto por esta profissão. Complexa, intricada, às vezes ingrata e mal interpretada; mas, por outro lado, desafiadora, apaixonante, humana e inspiradora. A razão de ser da Ciência da Computação é o fato de ser feita por e para pessoas.

No ano em que o núcleo dessa turma ingressou na universidade, faleceu um dos mais importantes nomes da Computação, Edsger Dijkstra. Sabiamente definiu: “A Computação estuda tanto os computadores, quanto a Astronomia os telescópios, a Biologia os microscópios e a Química, os tubos de ensaio. O computador é uma mera ferramenta, e não aprendemos a fazer funcionar máquinas, estudamos e questionamos os problemas dos usuários e da sociedade, propondo mudanças para melhorar seu bem-estar. Mudança é a palavra-chave para estes novos profissionais.

Vivenciaram, nos últimos cinco anos, um mundo em velozes e sérias transformações, e foram também agentes deste processo. 2002 está marcado na História pela intensificação da guerra contra o terrorismo e o agravamento da crise no Oriente Médio. Mudamos nossa percepção de segurança e paz. Também em 2002, a ordem econômica mundial começou a alterar-se com a criação do euro. Surgia uma moeda efetivamente mais forte que o dólar. Naquele ano foi reconhecido o verdadeiro inventor do telefone, o italiano Antonio Meucci. No Brasil, o panorama político transformou-se, com o registro de um processo eleitoral histórico e sem precedentes.

Em 2002, ingressaram num curso totalmente renovado: currículo novo, nova experiência didática, posse de um novo coordenador e uma nova direção, a qual passou a traçar os caminhos da universidade que aprendemos a estimar. Esse curso é agora mais moderno e ágil frente à dinâmica do mercado. Os dados que marcam sua turma refletem como assimilaram as transformações e participaram ativamente delas.

Entre eles temos 4 dos fundadores do diretório acadêmico: Cleverson, Elessandro, Mateus e Vagner. Nesta iniciativa demonstraram engajamento e consciência estudantil, com o apoio de todos os seus colegas. Os novos bacharéis estabeleceram um recorde: mais de 60% de seus trabalhos de conclusão qualificados como ótimos ou excelentes. Aprendemos que se uma idéia nãocerto, ainda tem valor, pois a ciência é feita de erros e acertos. Registramos outro fato inédito: dois formandos, Jorge e Maicon, aprovados no mestrado em universidades federais.

Contudo, sem desmerecer as conquistas acadêmicas, as maiores mudanças são sentidas na vida cotidiana. A maioria ingressou ainda adolescente, e acompanhamos seu amadurecimento pessoal e profissional. Neste tempo, alguns constituíram novas famílias e outros enfrentaram dramas pessoais, situações de vida ou morte, problemas financeiras, e encontraram pessoas querendo fazê-los desistir de seus sonhos e ideais.

Tais dificuldades não os impediram de nesta noite poder orgulhar-se do grau alcançado. Durante os períodos difíceis, muitos nos procuraram pra conversar, não como professores, mas como colegas mais experientes, parte de uma família. Passamos até por tempos de animosidade, em que pensamentos menos nobres nos consumiram. Superamos tudo e somos mais que colegas, estabelecendo com muitos uma relação de profunda amizade. Hoje agradeço-os publicamente.

Vocês reafirmaram minha certeza de que ser professor é gratificante e podemos, através da computação, melhorar a nossa sociedade, combater injustiças e construir um futuro mais digno. Como professores procuramos, além de ensinar, fazer diferença em sua vida profissional, como aponta o provérbio chinês: Não corrigir falhas é o mesmo que cometer novos erros.

Lembro que o ciclo de transformações que enfrentarão, não está nem perto de seu término. Mas essa é a essência da vida humana. Tomo emprestadas as palavras do saudoso pacifista Mahatma Gandhi: Você deve ser a mudança que deseja ver no mundo. Nenhuma melhoria afeta efetivamente o mundo se não for antes sentida em nossos corações. Desta forma, Cleverson, Cristiano, Dione, Doriane, Douglas, Elessandro, Jordano, Jorge, Leandro, Leonardo Laureano, Leonardo Silva, Leonardo Parise, Luis, Maicon, Mateus, Mauro, Rafael, Roseli, Tassiana, Taíse, Vagner e Vitor, creiam firmemente que vocês podem fazer diferença, pois...

Suas crenças tornam-se seus pensamentos.
Seus pensamentos tornam-se suas palavras.
Suas palavras tornam-se suas ações.
Suas ações tornam-se seus hábitos.
Seus hábitos tornam-se seus valores.
Seus valores tornam-se...
o
seu DESTINO
.” (Mahatma Gandhi)

21 outubro 2006

SBAC2006 - Ouro Preto: Parte 4 - Já Esperando por Gramado

O terceiro e o quarto último dia do evento foram bastante proveitosos. Foi dada continuidade às sessões técnicas. Uma das atividades mais interessantes a que pudemos assistir foi a Maratona de Programação Paralela, na qual estudantes de diversas universidade eram desafiados a paralelizar alguns problemas clássicos em computação. O objetivo era verificar quem conseguia obter o maior speedup.
Ainda houve duas palestras muito interessantes, as quais comentarei com mais calma no meu retorno. O Prof. Kazuaki Murakami, da Universidade de Kyushu, falou sobre o projeto PetaScale, cujo objetivo é construir um computador com desempenho de dezenas de petaflops. já a Profa. Margaret Martonosi, da Universidade de Princeton, falou sobre o Projeto Zebranet, no qual uma rede de sensores móveis são utilizados para rastrear os movimentos de zebras num parque nacional no Quênia.
Ao retornar pra casa, vou comentar mais detalhadamente sobre o evento... Estar fora de seu computador e pagando internet é brabo!!! Um grande abraço.

19 outubro 2006

SBAC2006 - Ouro Preto: Parte 3 - O Simpósio Começa em Grande Estilo

Ok, ok, eu tenho fotos do evento, mas não estou conseguindo postar porque não trouxe o notebook ("Travel light, travel fast"). Prometo assim que puder colocarei aqui as fotos. Por enquanto, vamos aos fatos.

De primeira, quero dar um conselho, em especial aos meus alunos: estude inglês e perca a vergonha de falar numa língua estrangeira. Falar inglês não é mais um extra, é fundamental. É interessante ver, numa cidade como Outro Preto, no interior de Minas Gerais, essa quantidade impressionante de turistas estrangeiros. Além disso, num simpósio como o SBAC, apresentar em inglês é oibrigatório e já pude ver alguns mestrandos, doutorandos e até professores passando um dobrado.

Nesta quarta-feira, o evento foi marcado pelo início das sessões técnicas, nas quais foi possível entrar em contato com trabalhos de pesquisa de alta qualidade, nas mais diversas áreas. As sessões técnicas versaram sobre: Aplicações de Alto Desempenho, Computação em Grids e Clusters e Microarquitetura de Processadores.

O ponto alto do dia foi a palestra do Prof. Joel Saltz, da Ohio State University, quando apresentou a caGrid, uma iniciativa para o gerenciamento, pesquisa e convergência de estruturas maciças de armazenamento de dados. Esse projeto pretende congregar, através de um grid, dados de imagens médicas e pesquisas em bioquímica, medicina e biofísica, a fim de aprimorar o fluxo de informações de pesquisas sobre o cancêr em várias universidades estadunidenses.

O dia encerrou-se com um excelente coquetel de recepção, com comida típica mineira e bebidas da terra. Foram servidos torresmo, mandioca frita, linguiça caipira, iscas de lombo, além de diversos tipos de queijos e frios, típicos da terrinha. Para degustação havia cachaças de Salinas, inclusive a famosa, que também leva o nome da cidade. Um grupo de chorinho e samba animou a noite.

18 outubro 2006

SBAC2006 - Ouro Preto: Parte 2 - As primeiras impressões

O primeiro dia de evento foi tranqüilo. Os dias mais puxados serão quarta e quinta. Abrindo os trabalhos do simpósio houve três eventos paralelos: o WEAC (Workshop de Educação em Arquitetura de Computadores), o PARGOV (Workshop sobre Clusters e Grids Aplicados a Governança Eletrônica), o WVAD (Workshop em Visualização de Alto Desempenho) e o HPCLIFE (Workshop on High Performance Computing in the Life Sciences).

Além desses eventos, houve ainda um tutorial muito interessante com o Prof. Jean-Luc Gaudiot, intitulada "The Walls of Computer Design", na qual ele tratou de relacionar e discutir os principais desafios (barreiras, "walls") no projeto de computadores. Entre eles, citou com bastante ênfase o uso de Chip Multiprocessors (CMP, processadores multicore) e de Simultaneous MultiThreading (SMT). A mensagem principal é de que definitivamente é necessário investir em paralelismo de instruções e threads, ao invés de buscar alternativas físicas para aumentar a freqüência de processadores.

Encerrando o dia, foram apresentados dois minicursos: "WebServices para Computação de Alto Desempenho", apresentado pelo Prof. Alexandre Caríssimi (UFRGS) e "Arquitetura de Processadores com Conjunto de Instrução Reconfigurável", pelo Prof. Ivan Saraiva (UFRN).

Para terminar bem o dia em Ouro Preto, chuva TORRENCIAL. Muito aguaceiro, parecia que o céu ia desabar sobre a cidade... A manhã de quarta-feira continua com chuva...

17 outubro 2006

SBAC2006 - Ouro Preto: Parte 1 - Histórias de ônibus

Bem, essa semana estou participando do SBAC (Simpósio Brasileiro de Arquitetura de Computadores) que está sendo realizado em Ouro Preto. Antes de vir ao evento estava em Juiz de Fora, em visita familiar. Começa aí a aventura...

Quem já viajou entre cidades do interior de Minas, sabe como a coisa funciona: é viajar de "cata-jeca" e fazer baldeação. Comigo não foi diferente. A opção mais simples de transporte por ônibus era via Conselheiro Lafaiete, com espera de 1 hora entre um ônibus e outro. Contudo o mais marcante é o "cata-jeca" (o mesmo que "ônibus pinga-pinga" no sul), uma linha que vinha parando pra qualquer moita que se mexesse com o vento na estrada. Esse horário em que eu fui pára em Santos Dumont, Barbacena, Ressaquinha e Carandaí, antes de Lafaiete; depois para em Congonha, antes do final em Beagá (Belzonte ou Belo Horizonte).

Fora as paradas, o trajeto foi tranquilo, saindo de JF às 07:00 e chegando em Ouro Preto às 12:30. O lance depois foi encontrar a pousada e o Centro de Convenções. Ladeira, ladeira, ladeira... Daquelas que nem cabrito de kichute sobe tranqüilo. O que mais desespera é quando você vê só descida: a volta será SÓ SUBIDA!

Mas Ouro Preto continua linda e acolhedora, com aquele ar de que parou no tempo... Outra hora eu falo mais sobre o congresso e algumas histórias do ônibus. Claro! Jeca (que nem eu) ouvindo jeca, tem de ter causo.

04 outubro 2006

Longe do Brasil

No final do ano de 1999, passei seis meses num estágio-sanduíche nos Estados Unidos. Mais exatamente estive na Purdue University, em West Lafayette, estado de Indiana. Foi uma experiência ímpar, na qual tive inclusive a alegria de conhecer a cidade de Chicago, mas também fez-me ver o quanto a grande "Terra Brasilis" é maravilhosa. Saudade, muita saudade do Brasil, dos amigos, da família, do pão de queijo, da pamonha, de tudo um pouco...

Naqueles dias, em meio ao frio (inverno de -15 graus!) havia dias em que só me restava escrever, escrever e escrever. Cartas, artigos, apostilas e, sobretudo, poesias. Daqueles dias, essa poesia abaixo foi um retrato do que via e sentia. Espero que gostem.

TODOS OS MARES SÃO IGUAIS?

Navio no oceano
Porto único
Tantos mares
Tantas venturas
Todavia há de retornar

Tua âncora é
Tão longa quanto mil milhas
Cada uma mede outras mil
Todavia há de retornar

Cores estranhas
Sons estranhos
Sonhos estranhos
Deuses bizarros
Sua cor, seu som, seus sonhos, seu Deus
Não são melhores
Não são maiores
São seus...
E ainda há de retornar

Pensa que tudo mudou
Pensa que tudo está igual
Nada mudou
Nem permanece igual
E é ainda o mesmo menino
O mesmo homem
Com filosofias tão novas
E anseia retornar

03 outubro 2006

O Que É Ser Mineiro?

Os meus amigos mais próximos sabem que, apesar de ter nascido na incrível e adorável (ao menos para mim) cidade de São Paulo, amo Minas Gerais (ou pelo menos quase todo o estado). Mais especialmente, amo a cidade de Juiz de Fora. Mas o que poucos sabem é o que JF ("jotaéfe", é assim que os nativos e amantes dessa cidade a chamam) significa pra mim.

Antes de qualquer coisa, em JF descobri minha profissão, minha paixão pela poesia, a vida adulta, os grandes amigos que carrego até hoje no coração. Querem mais detalhes? Então essa é a minha lista pessoal, contendo os significados de "Ser um Jovem Mineiro (de Juiz de Fora)":

- Estudar no CTU (Colégio Técnico Universitário).
- Ter milhares de histórias pra contar do tempo de CTU.
- Ter estudado Informática Industrial.
- Ser da 3a turma formada na Informática Industrial
- Ter sido professor do CTU.
- Gritar, pular e torcer nos intercursos e interclasses do CTU.
- Criar dezenas de gritos de guerra pra torcida do seu curso.
- Ter o prazer de ver a minha turma bater a, até então, imbatível turma de Metalurgia no vôlei.
- Namorar depois da aula (ou cabular aula) sentado sob as árvores da UFJF (onde ficava o CTU)
- Passar mal com a comida do bandejão do R.U.
- Ter o (des)prazer de andar de "pretão" (circular da universidade), quando ele ainda existia.
- Participar das rixas com a Faculdade de Engenharia.

- Passear no calcadão da Rua Halfeld (foto acima) no sábado de manhã.

- Marcar com um encontro com alguém no relógio (foto acima) do Parque Halfeld (e usar o relógio como referência máxima pra atrasos ou desculpas)
- Comer um sanduíche do Mary Milk, no final da balada.
- Ter dançado nos bailes da danceteria Dream´s.
- Ter jogado boliche na Murilândia.
- Ter tentado de tudo pra entrar no Vivabella (mas não te deixavam, porque era "de menor")
- Ter economizado dinheiro para entra na Squadro (e não poder entrar porque era "de menor" e não tinha "pai rico")

- Passar o domingo de tarde no Museu Mariano Procópio.
- Fazer o programa de índio no sábado com a turma e ir de trem até Matias Barbosa (e voltar correndo, porque não tem nada pra fazer lá).
- Ir na Festa das Nações.
- Ir na Exposição Agropecuária e Industrial da cidade.
- Levar a namorada até o Manoel Honório Procópio a pé porque nenhum dos dois tinha dinheiro pro ônibus.
- Andar a pé de Santa Terezinha até São Mateus na hora do almoço, porque não tinha dinheiro pro ônibus.
- Pedir carona pra ir pra ou vir da Universidade porque não tinha dinheiro pro ônibus.
- Andar a pé pra qualquer lugar porque NUNCA tinha dinheiro pro ônibus.
- Fazer um passeio de bicicleta de São Mateus a Benfica, mas por puro prazer de passear (já devem perguntar: "Porque não ia de bicicleta, se não tinha dinheiro pro ônibus?)
- Comer um cigarrete de queijo e presunto com um suco de açaí e guaraná no Marechal Center.
- Comer um docinho da Fábrica de Doces Brasil
- Comer uma picanha na pedra, com pãozinho de alho e vinagrete, acompanhada por um delicioso chopp na Churrasqueira de São Mateus.
- Pegar filme na Imagem Video Show.
- Ir na missa das 20:00 em São Mateus pra ver as meninas indo pra balada depois.
- Saber o nome de todas as transversais (lado esquerdo e direito) da Av. Rio Branco desde a Independência até a Getúlio.
- Comer um pastel na pastelaria Rolante Mexicana.
- Comer um torresmo no Bar do Bigode.
- Ter conhecido bares históricos como o "Balcão", "Meninos Geraes", "Batata Belga", "Milk Shake", "Gilbertinho´s", "Garfo e Faca", "Muhareb", "Em Kantu´s", "Piriá", "Chez Moi", entre tantos outros já extintos.
- Tomar uma coca-cola num boteco do centro da cidade.
- Ter assistido um filme no Veneza ou no Excelsior (no tempo em que os cinemas cabiam mais do que três casais e meio)
- subir o morro da Halfeld para estudar no CES (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora).
- Estudar Processamento de Dados no CES (porque era considerado curso de homem), mas adorar as meninas da Psicologia (que era considerado curso de mulher).
- Ter feito estágio na Siderúrgica Mendes Júnior (um dos melhores na época), que depois virou Mendes Júnior Siderurgia e hoje é Parte da Belgo Mineira.
- Não conseguir esconder de todo mundo que você estava fazendo estágio na Mendes Júnior, pois inevitavelemente engordava uns 3 quilos com a ótima comida do refeitório da fábrica.
- Ir visitar um amigo e morrer de tanto comer pão de queijo, broa de milho, bolo de fubá, biscoitinho de nata, doce de leite com queijo minas, romeu e julieta... Tudo isso porque é uma tremenda desfeita recusar comida!!!!
- Conhecer a mãe de todos os seus amigos pelo primeiro nome, chamá-las de tia e ter respeito igual ao que você tem pela sua mãe. Afinal, elas são mães-interinas enquanto você estiver dentro da casa delas.
- Reunir no Largo do Alto dos Passos, em frente ao McDonald´s pra comemorar a vitória da Seleção na Copa do Mundo (1994 foi fantástico!!!)
- Ter algum grande amigo ou amiga descendente de libaneses e adorar ir na casa dele no dia de festa, porque a comida é boa demais da conta!!!
- Namorar na pracinha de São Mateus tomando sorvete.
- Tentar pegar um avião pra ir a Juiz de Fora e sempre pousar no Rio de Janeiro, porque o aeroporto está quase sempre interditado (morro, morro, morro, tempo fechado... quem decidiu o local daquele aeroporto?)

- Adorar a vista da cidade do alto do morro do Cristo.
- torcer pra um time do Rio (Flamengo até morrer!), passar Carnaval em Piúma (ES) e fazer compras de inverno em Petrópolis (RJ).

Olha, essa lista poderia ser muito maior, mas a gente tem de saber quando parar, ou a saudade acaba matando a gente...

02 outubro 2006

Carioquês - Parte 2

Aqui vai a segunda e última parte do "carioquês". Andaram me perguntando se a maior parte dessas palavras não é de uso nacional. Eu concordei que sim, mas há uma explicação que precisa ser posta.

Atualmente, no país, o maior canal de mídia e comunicação é a Rede Globo. Sem nenhuma preocupação com sua projeção nacional, a Globo acaba por massificar o falar e o conjunto de gírias brasileiras, por expor de forma tão incisiva a sociedade carioca em suas novelas, mini-séries e programas humorísticos. Essa é a razão pela qual achamos que "irado", "mano" e "véio" são de uso nacional. Essa e muitas outras gírias foram criadas no Rio de Janeiro e exportadas para outras regiões brasileiras.

Sem nenhum demérito para os cariocas ou para outras culturas em nosso país, acaba havendo assim, uma massificação. Por isso é que vocabulários como o dos mineiros, nordestinos ou gaúchos tornam-se tão peculiares e distintivos.

Não estendendo demais a introdução, trago aqui mais algumas expressões de uso carioca.

Vocabulário (continuação)

maluco - s.m. 1. cara, sujeito, indivíduo, em geral sem flexão de número, existindo somente no singular ("Não conheço aquele maluco", "Tava com uns maluco da faculdade").

mané - s.m. 1. otário, vacilão, prego, sujeito que pisa na bola.

maneiro (manero) - adj. 1. show de bola, muito legal. Também muito usado no superlativo: maneiríssimo

maraca - nenhum carioca vai ao "Estádio do Maracanã", eles vão ao "maraca"

média - s.f. 1. apenas uma xícara de café com leite, também chamado em outros estados de "pingado".

meRRRmão - s.m. 1. diz-se do nativo do Rio de Janeiro do sexo masculino, formado por aglutinação da expressão "Meu Irmão"

mó - adv. 1. usado como advérbio de intensidade, substituindo, em quase tudo, a palavra muito, é formada por redução da palavra "maior" ("mó mané", "mó otário", "mó legal", "mó manero"="maneiríssimo").

mulé - s.f. 1. usado paras os meRRRmão do sexo feminino, em geral a namorada de algum meRRRmão chegado.

parada - s.f. 1. palavra de uso genérico, de uso muito similar ao "trem" do vocabulário mineirês ("O professor ensinou uma parada bem maneira em Java.", "Assisti uma parada legal no cinema", "Esqueci uma parada em casa.").

paraíba - s.m. 1. qualquer indivíduo nascido ou residente acima do paralelo que passa por Copacabana, alguns cariocas têm um certo preconceito contra nordestinos e generalizam tudo como "paraíba". 2. Em geral usado por quem faz besteira no trânsito ("Não tá vendo que é contramão, paraíba?")

podrão - s.m. 1. típico prato da madrugada carioca. Em geral um sanduíche comprado em barraquinhas "suspeitas" (ao menos para a vigilância sanitária, pois em geral os donos são "peixe" dos meRRRmão). Esse tipo de cachorro-guente leva de tudo que você possa imaginar. Se você achou que não é possível colocar tudo, pense em algo e colocar, afinal o podrão é seu e o nome característico diz tudo, não?

porra - é importante frisar que esse vocábulo, para um carioca, não tem conotação chula, apesar de conhecerem a etimologia. 1. usada como interjeição de dor, raiva, angústia, sofrimento, morte iminente, traição, carestia, ou seja, o que você quiser ("Porra!"). 3. sinônimo que, em geral substitui "parada", mas com ar de desaprovação ou estranheza.

porrada - diferente de outros estados, não significa briga ou pancadaria, sendo usado como um coletivo genérico ("O professor deu uma porrada de zeros!", "Tinha uma porrada de gente na fila", "matilha"="porrada de câes", "enxame"="porrada de abelhas")

posto - jamais pergunte onde fica o posto mais próximo se você estiver no Rio de Janeiro, provavelmente vão ensinar-lhe como chegar a Ipanema, Leblon, Copacabana ou qualquer outra praia. No Rio de Janeiro, "posto" é como chamam os "postos de salva-vidas", e que não numerados (todo carioca sabe a localização e o número de todos os postos). Se precisar de um "posto de gasolina", seja mais específico.

prego - s.m. 1. o mesmo que mané

puRRRque - o mesmo que "porque", "por que", "porquê" e "por quê".

puto - s.m. 1. o mesmo que mané. Um gaúcho irá estranhar o uso da palavra, pois no Rio Grande do Sul é sinônimo para "viado", "bicha", "gay".

queimá a laRRRgada - sair mais cedo, em geral para almoçar.

quentinha - o mesmo que "vianda" no Rio Grande do Sul e "marmitex" em São Paulo.

rapá - rapaz. Usado para se referir à quem se fala, mas que normalmente não é um meRRRmão, é desconhecido. ("E aê rapá?")

sacode - essa sim significa briga ou pancadaria, mas em geral é definitiva. Quem toma um sacode de um meRRRmão aprende a deixar de ser mané.

sangue - redução de "sangue-bom", uma pessoa "mó" legal, gente boa e agradável, um meRRRmão maneiríssimo. Costuma-se usar também a sigla "CB" (isso mesmo: "cê-bê")

vaza - o mesmo que "vai embora daqui" ou "some da minha frente já!"

X9 - o mesmo que alcagüete, ou seja, delator.

01 outubro 2006

Carioquês - Parte 1

Lembrando que tenho alguns alunos (Daniel, João Paulo e Saulo) que irão viajar para o Rio de Janeiro em novembro próximo, e continuando a seqüência de posts de "enriquecimento cultural", decidi trazer algum auxílio a eles ou a qualquer indivíduo viajando pela "Cidade Maravilhosa". O post de hoje é a primeira parte de um pequeno dicionário básico de "carioquês", dialeto do português muito empregada na cidade do Rio de Janeiro e copiada por todo o estado fluminense e adjacências (jizdifora e spritusantu).

Um pouco da fonética
É importante mencionar que o "R" em carioquês tem uma pronúncia que pode ser denominada de "R-cedilha", pois é tão forçado na garganta (gutural, como diriam os fonéticos) que ninguém não nascido no estado do Rio de Janeiro tem capacidade fonoaudiológica para interpretar adequadamente. Um caderno convencional seria algo como cadeRRRno.

Aspecto notável também possui a pronúncia do "S" que aparece no final de uma sílaba ("S" seguido de vogal não oferece diferenças). Esse fonema é também um "S-cedilha", funcionando como um "XXX" (triplo X). Apenas para citar como exemplo, crianças cariocas ao brincar de pique-eXXXconde, conta "um, doiXXX, treXXX".

Não há na literatura nenhum registro documentado de um encontro, seguindo de comunicação oral, entre um carioca e um colono típico gaúcho (principalmente de ascendência italiana). Quem já foi a Marau, a terra do Aço, sabe o que estou dizendo (bem, eu aço que sim, mas quem sou eu pra dizer que aço que nom?).

Vocabulário
Abaixo são listados alguns exemplos de palavras e expressões comumente empregadas em solo carioca (ou veículada em novelas da Rede Globo):

- 1. Adv. define um lugar qualquer, que pode ser desde o assento de uma cadeira ("Senta aê, mané") ou até um bairro (ou favela) inteiro ("Os cana tão por aê na área) 2. Usado como vocativo pode também ser usado para chamar atenção de um merrrmão ou maluco qualquer ("Aê, meRRRmão, coé a parada?"). Obs: Dependendo da tribo que o utilizar, pode variar até para um formato de interjeição ou para uma boiolice qualquer como "aiiiiih" ou "aeeeeh".

arraXXXtão - s.m. em qualquer outro estado do país, é um tradicional tipo de pesca com rede, em geral ilegal; no carioquês, é outro meio dos meRRRmão ganharem a vida. Essa atividade profissional está tão difundida que já está sendo aberta franquias em outros países, como Portugal (vide o arrastão na Praia de Carcavelos, foto)












avenida brasil - principal via de acesso ao RJ, usada como ponto comercial, rota de entrega, local de assaltos e praça de guerra dos meRRRmão.

aXXXfalto - s.m. qualquer lugar de moradia de um meRRRmão que não seja no morro.

bolado - adj. condição de incompreensão momentânea ou preocupação em qualquer nível ("Aê, meRRRmão, tô bolado, acho que minha mulé tá me furando o olho")

bonde - s.m. 1. ônibus (ou até inventarem outro meio de transporte coletivo que seja possível trapacear). 2. Galera, turma.
("O bonde do pampa coders ficou em primeiro lugar.").

cabaço(ão) - s.m. 1. sujeito trapalhão, em geral, iniciante em algum assunto e inexperiente (virgem) em algum assunto ("Esse mané é mó cabação!")

carái - interj. 1. o mesmo que a expressão "caralho", mas sem qualquer conotação chula, indicando uma coisa legal, que impressiona, causa admiração. ("Carái, o fla ganhou a copa do brasil!!!") 2. Em uso com a preposição "pa-" (originada da contração de "pra", que por sua vez vem de "para"), significa um advérbio de intensidade ("Em Erechim tava frio pacarái.").

coé - aglutinação da expressão "qual é" ("Coé, meRRRmão?"), em geral indica desaprovação ou exaltação de ânimo.

conto - unidade monetária universal, sem plural ("A parada custa 10 conto"). O mesmo que "pila" no Rio Grande do Sul.

elevado - avenida de grande porte construída em pilares sobre as favelas (pra não dizer que as favelas foram construídas sob os elevados), hoje usada pra assaltos e engarrafamentos aéreos. O mesmo que viaduto em qualquer outro estado do país.

filé - adj. 1. Mulher muito atraente, com um "xeipe" (do inglês "shape") invejável. Etimologicamente deriva de "filé-mingnon", uma carne muito boa e macia, considerada "a melhor parte" do bovino.

furaoi - adj. (derivado de "fura-olho") 1. diz-se do indivíduo que, incapaz de conseguir realizar o coito sem pagamento, e por méritos próprios, vive de impedir o sucesso alheio. 2. em versão moderna diz-se de qualquer traidor.

íhóocaraaê - expressão que demonstra intensa desaprovação, uma maneira de dizer que um meRRRmão está fazendo besteira.

joelho - salgadinho feito com massa, presunto e queijo que os meRRRmão comem por aê. (vide foto abaixo e receitas: 1, 2)

28 setembro 2006

Rancho ou rancho?

Estava conversando com a minha esposa hoje e ela me lembrou de uma micro-história (daquelas do post anterior), a qual é a mais engraçada pra mim (a graça de um não garante a graça de outro, ok? Essa também tem a ver com as palavras que no Rio Grande do Sul são diferentes de outros lugares.

Em Porto Alegre, vendo televisão (recém comprada em promoção!), assistia aos intervalos comerciais. Uma famosa rede de supermercados anunciava "Faça qualquer compra no valor de R$ 30,00 ou mais e concorra a um rancho". Poxa, na hora eu pensei: "Que promoção fantástica!!! Vou comprar só nesse mercado pra aumentar as minhas chances!".

No dia seguinte, conversando uma amiga, a Joana, falei pra ela da promoção. Ela disse que não era grande coisa, até porque às vezes, alguns preços eram mais altos que o da concorrência. Eu falei que, mesmo assim, era uma "puta" (gíria paulista, não tem sentido chulo, apenas quer dizer "Muito", "demais", "em abundância") promoção. Afinal, o cara que ganhasse ia faturar um rancho!

A Joana começou a achar estranha a minha empolgação, e acreditou que estava havendo uma falha de comunicação entre o supermercado e eu. Perguntou pra mim o que eu esperava de um "rancho". Animadíssimo eu logo disse: "Um lugar legal, no interior, um pouco maior que um sítio, etc, etc, etc". Ela então finalizou: "Pára de sonhar com suas vaquinhas e um pomar então, porque aqui no Rio Grande do Sul, um rancho é só uma "compra do mês"...

27 setembro 2006

Um Sudestino Perdido no Rio Grande do Sul

Bem, motivado pela recente curiosidade de alguns alunos meus sobre essas diferenças culturais pelo Brasil, vou contar aqui algumas "micro-histórias" de quando vim morar em Porto Alegre e depois em Erechim. Lembro que não sou gaúcho, sou um "sudestino", refiro-me assim, com esse neologismo, pois morei, até os meus 23 anos de idade, em 4 diferentes cidades da Região Sudeste do Brasil: nasci em São Paulo, morei no Rio de Janeiro (na Ilha do Governador e em Jacarepaguá, o que significa dizer quase em cidades distintas), voltei para São Paulo, fui para Juiz de Fora e depois para Campinas (SP). Sou um sudestino.

Micro-história 1: Usando uma nova moeda.

Aniversário de Porto Alegre, festa na Redenção, há 3 semanas morando na cidade... Chega um vendedor de cerveja. Garganta seca, preciso refrescar-me. Pergunto o preço. O rapaz grita: "É dois PILA". Eu retorno "E quanto dá isso em reais?".

Micro-história 2: A voraz devoradora escravagista

Roda de amigos, uma colega acabava de voltar de Rio Grande onde morava a família dela. Parece que havia sido um ótimo final de semana, e ela contava de uma festa de aniversário de criança a qual havia ido. Ela disse: "A mesa de doces tava linda, mas nada me agradava, então fiquei ali só conversando. Na hora que chegaram os NEGRINHOS, não resisti, me atraquei e comi uns 12".
Tive um arrepio por não ter entendido nada. Ou ela era uma antropófaga com paladar selecionada para pequenos afro-descendentes; ou, POR FAVOR, aquilo era o nome de alguma iguaria... Graças a Deus, era só um inofensivo brigadeiro.

Micro-história 3: Tentando não ofender a guria

Recém-chegado, louco para conhecer as "nativas", comecei a "trovar" (xavecar, paquerar, barulhar) uma guria. Tentei ser gentil e dizer a ela "Você não é de Porto Alegre, não é? Não parece.". A minha humilde intenção era de dizer que ela não parecia com um grande número de gurias "da capital" que eu havia conhecido, muito arrogantes e metidas. Rapidamente ela disse: "Tu tá me achando com cara de COLONA?". Sem saber o que era o tal de "colona", falei que não, e expliquei rapidamente. Bem mais tarde vim a entender que, naquele contexto, "colona" seria o mesmo que "da roça", "caipira", "jeca"...

Micro-história 4: A difícil tarefa de ser professor

Primeira aula substituindo um antigo professor, no meio do semestre. Começo a conversar com a turma e tentar explicar como seria o meu método de ensino, o que iríamos usar como bibliografia, como seriam as avaliações. Pergunto se há alguma dúvida e um rapaz levanta o braço e questiona "O senhor vai usar o mesmo POLÍGRAFO do outro professor?". Colocado contra a parede por mais uma nova palavra, respondi "Rapaz, se eu soubesse o que é polígrafo, até poderia te responder, mas supondo que isso seja parte do material do outro professor, acredito que não usarei nada do material antigo. Mas o que vem a ser esse polígrafo? Você pode me mostrar?". O rapaz gentilmente mostra e eu digo "Ah, você queria dizer a APOSTILA?".

Fora essas micro-histórias, poderia citar muitas outras, é muito complicado comunicar-se também no Rio Grande do Sul. Existe um vocabulário muito específico, expressões muito particulares. Em alguns momentos chegam a ser uma nova língua. Palavras que para um gaúcho são comuns, são quase "estrangeirismos" para o restante do Brasil. Apenas para citar alguns exemplos, veja a lista abaixo:

acoar - latir (cachorro)
atacar - significa dizer que um guarda parou alguém, por exemplo numa blitz (O guarda me atacou - O quarda me parou)
auto - o mesmo que carro, automóvel (mais usado por pessoas de mais idade)
bidê - mesinha de cabeceira, criado-mudo (no resto do país, o bidê é uma das peças de louça do banheiro usada como lavatório das partes genitais e do ânus)
bolicho - casa de negócios de pequeno sortimento e de pouca importância, o mesmo que bodega.
cacetinho - pão francês, pão de sal, pãozinho
china - descendente ou mulher de índio, ou pessoa de sexo feminino que apresenta alguns dos traços característicos étnicos das mulheres indígenas. Cabloca, mulher morena. Puta. Na intimidade pode até mesmo significar a esposa querida.
chinoca - Mulher.
classe - no contexto escolar, no RS é só a mesa dos alunos, chamada em outros lugares de carteira.
cusco - Cão pequeno, cão de raça ordinária. O mesmo que guaipeca, guaipé.
guampear - trair, botar chifres ("guampa")
lâmina - no contexto acadêmico, são as transparências usadas pelo professor ou, erroneamente, slides.
pelear - batalhar, trabalhar duro por alguma coisa.
sinaleira - semáforo, farol, sinal
ximia - o mesmo que geléia (mas nunca diga isso a um gaúcho!!!)
xingar - é brigar com alguém. Qualquer tipo de reprimenda, mesmo que não tenha palavrões.

26 setembro 2006

Dicionário Prático de Mineirês

Esse blog não vive apenas de momentos profundos e reflexivos... No último post, "O Meu Lugar", perguntaram-me qual era o eu lugar... Obviamente que respondi "Juiz de Fora", mas na verdade posso dizer que quase toda Minas Gerais é o meu lugar, excetuando-se alguns lugares estranhos com gente esquisita (como diria o Eduardo, de "Eduardo e Mônica").
Caso alguém de vocês vá se aventurar a conhecer MG, recomendo fazer uma imersão em diversos aspectos culturais, especialmente a língua. Para auxiliar nesse processo, trago aqui alguns vocábulos (e algumas frases completas também) de fundamental importância no processo de comunicação mineirístico.

A
antionti - antes de ontem
B
badacama
- debaixo da cama
belzonte - belo horizonte
C
cabedipassaismánazunha
- acabei de passar esmalte nas unhas
cadim - bocadinho, um pouquinho
cadiquê - o mez qui causdiquê
casopô - caixa de isopor
causdiquê - o mez qui pucausque
cetábão - você está bom? O mesmo que "você está bem?"
cetáboa - você está boa? O mesmo que "você está bem?" para mulher
cocê - com você
concorcucê - eu concordo com você
coquincuntes - é uma coisa que acontece
credincruis - credo em cruz
D
dárripidivê
- isso dá arrepio de ver
dendapia - dentro da pia
denduforno - dentro do forno
dentifrisso - dentifrício, o mesmo que pasta de dente, embora em desuso
deu - o mesmo que "di mim": "Larga deu, ô sô!"
dicoqui - de cócoras, sentar agachado
dimais da conta - além da medida; "bom... ", muito bom, excelente
djenium - de jeito nenhum
docê - de você
dodicabes - dor de cabeça
dodistongo - dor de estômago
doidimais - doido demais
donasjunta - dor nas articulações
donofigu - dor no fígado
E
éakekiliga
- é aquele que liga
émez - é mesmo?
I
iscodidente
- escova de dente
J
jizdifora - Cidade minera "pertín do RidiJanero". O "pessoar da capitár" nunca sabe se a turma de lá é "minerin" ou carioca. Daí ficam dizendo que é terra dos "carioca do brejo".
K
kabô - acabou
kapoko - daqui a pouco
kidicarne - kilo de carne
L
lidileite - litro de leite
M
magrilin
- Indivíduo muito magro
makifalducação - mas que falta de educação
manem - de forma alguma, de jeito nenhum
mastumate - massa de tomate
midipipoca - milho de pipoca
modizê - modo de dizer, maneira de falar algo
moiá a palavra - tomar um gole, beber um gole de bebida como cachaça
N
- forma reduzida de nossinhora
nossinhora - nossa senhora
nu - versão muderna do "nó", coisa dos jeca de belzonte
nutogradanodis - não estou agradando disso, não estou gostando disso
O
onquié
- onde que é?
onquoto - onde que estou
oprocevê - olha pra você ver!
óscargualzim - olha os carros iguaizinhos
óuchero - olha o cheiro!
P
pincumel
- pinga com mel
pipocumquijim - pipoca com queijinho (qualquer hora divulgo a receita!)
pokim - pouquinho, bocadinho
pondiôns - ponto de ônibus
pradaliberdade - Praça da Liberdade
prestenção - presta atenção
procê - pra você
pron-nostaminu - para onde nos estamos indo?
pucausque - por causa de quê?
puquecetamipeguntanuissu - por que você está me perguntando isso?
Q
qentá sóli
- ficar sentado de cócoras no terreiro pegando o primeiro sol da manhã pra passar o frio
quainahora - quase na hora
S
sápassado
- Sábado passado
sessetembro - sete de setembro
T
tampar
- jogar, lançar, arremessar
tidiguerra - tiro de guerra
tissodai - tira isso dai
tradaporta - atrás da porta
trem - coisa, qualquer coisa é um trem, mas nem todo trem é uma coisa.
trudia - outro dia
tupicão - também tropicão, quer dizer tropeço.
V
vidiperfumi
- vidro de perfume

20 setembro 2006

O meu lugar

Você pode conhecer o mundo inteiro, mas só vai ser feliz e amar o lugar que conhecer por inteiro. E não digo isso geograficamente, é preciso conhecê-lo na essência. Não acredito amar um lugar sem conhecer tudo.

É preciso conhecer história, as ruas, os moradores, as escolas, as músicas, o teatro, os museus, o calçadão (se houver), o rio, o parque municipal, a praça central, o antigo prefeito, o novo padre, o pai-de-santo, o mendigo, a zona, a sacristia, o cachorro vira-lata... Uma cidade nunca é a mesma e nunca será igual novamente. E a nossa paixão, o amor por uma terra é dinâmico e cresce e muda e volta e vai e gira na mesma velocidade da lua cheia que ilumina a árvore sob a qual você aprendeu a namorar.

Conhecer o seu lugar é conhecê-lo de fora, em toda a sua ausência e saudade. Mas então talvez seja tarde e você já não more mais lá. Nem por isso deixa de ser o seu lugar amado. E para amar um lugar, não é preciso que ele seja perfeito, que ele seja eterno, ou completo. Podem faltar muitas coisas (talvez um mar), mas você sabe que pode chegar e tudo será seu pra sempre, pois é de todo mundo que ama esse lugar.

Quanto mais conheço o mundo mais amo o meu lugar. Quanto mais longe vou, mais perto estou, pois sei que o meu lugar vai comigo em meu coração. Amar o seu lugar é saber dos defeitos e pensar sempre em formas de melhorá-lo (talvez a distância o impeça de agir).

Amar o seu lugar é apresentá-lo, nem que seja em fotos, à pessoa amada e mostrar o quanto aquele pedaço de chão é importante e o quanto você o preza. Amar o seu lugar é poder um dia trazer seus filhos aos mesmos lugares em que você cresceu e falar (muitas vezes praticamente sozinho) de tudo que mudou nos últimos 10, 20, 30,..., 60 anos (já para os seus netos).

Amar o seu lugar é defendê-lo e mostrar que ninguém é melhor que ninguém, da mesma forma que nenhum lugar é melhor que outro lugar, a não ser pelos seres que o modificam, constroem, melhoram, destroem, degradam. Nenhum povo é melhor que outro povo, ele apenas é. A moral é cultural, o sol é uma questão de pele, o frio é uma questão de fogueira, o peixe nada conforme a maré. Tudo está em seu perfeito lugar e o meu lugar é em qualquer lugar do mundo, desde que meu coração leve consigo o meu lugar de verdade.

11 setembro 2006

No Caminho Certo

Muitas vezes, quando um grupo realiza um trabalho, pode ficar em dúvida se está realizando um bom trabalho ou apenas jogando esforço fora. Esse não é o caso muitos alunos daqui da URI - Campus de Erechim. Em especial, gostaria de citar os seguintes:
  • Daniel Fernando Pigatto (GoogleBoy)
  • João Paulo Orlando (BugFinder)
  • Saulo Matté Madalozzo
  • Roberto Busetto (Beto)
  • Melissa Cristina Devens (Mel)
  • Rodolfo Migon Favaretto
  • Aderson Piccoli
  • Ivan Brasil Fuzzer (Ubuntero)
  • Marcos Andre Lucas
E porque eles podem se certificar de que estão fazendo um bom trabalho? Bem, no último sábado, dia 09 de setembro, essa galera participou da Maratona de Programação da SBC (Sociedade Brasileira de Computação), ligada ao ICPC (International Collegiate Programming Contest) da ACM (Association for Computing Machinery). Mais especificamente, os 6 primeiros formaram os dois times de programação da URI - Campus de Erechim e os 3 últimos participaram na organização do evento.

Daniel, João e Saulo compuseram o time "Pampa Coders" e foram os grandes vencedores da regional que foi realizada em Erechim. Agora, esse 3 garotos, junto com o "coach" do time, o Prof. Neilor Avelino Tonin, irão para o Rio de Janeiro para a final nacional, nos dias 10 e 11 de novembro desse ano. Meus parabéns e que ampliem ainda mais essa bem sucedida participação. Melissa, Roberto e Rodolfo são o segundo time da URI - Campus de Erechim, os "Overflow". Para primeira participação eles demonstraram uma grande vontade e espírito de cooperação e colaboração raro para alunos tão novos (dois deles são do 2º semestre).

Já Anderson, Ivan e Marcos são veteranos da Maratona, foram vencedores da regional de 2005 e ficaram em 24 º colocados na final. Os três não mediram esforços em auxiliar os colegas mais novos durante todo o período de treinamento e foram decisivos, graças à sua experiência, no auxílio na organização do evento. Juntamente com o Prof. Neilor, todos puderam mostrar mais uma vez como se faz um bom trabalho e que estão no caminho certo.

O sucesso (um conceito muito mais amplo que o da simples vitória) pode ser codificado em alguns verbos: participar, colaborar, acreditar, persistir e realizar. Parabéns aos meus alunos!!!

04 setembro 2006

Reavivando com poesias

Reavivando um pouco o blog, trago uma poesia nova.

SEGUINDO SEU OLHAR

Podia por horas
seguir seus olhos
na imagem virtual.

Não seria eu nem você,
seria a vida num rodamoinho.
Seu olhar sempre meu
aprisionado em cliques
e tiques desse coração

Tudo em calma
parece apenas.
Um olhar desconcerta
a calma aparente
que vê e sente.

Um sorriso
entre mechas caidas,
distante num Da Vinci,
Moderna Lisa,
no que der na idéia.

Nem faz idéia
que vejo seu olhar
todos os dias
e preciso ver.

Que quero ter
e não poderia.
E me acalmo
só em ver
virtual imagem
só minha.

É inevitável,
parece coincidência.
É mesmo inevitável,
nem que peça a Deus
nem que diga adeus,
nem amanhã,
nem depois,
nem sempre.

Mas sempre
seguindo seu olhar,
sem culpa,
sem desculpa,
sem que saiba,
que vejo seu olhar
todos os dias
e preciso ver

14 agosto 2006

Design de um Arquiteto de Computadores

Outro dia, numa aula, um aluno meu (o Luis Carlos, mais conhecido como "Fuzi"), sugeriu de forma bem-humorada que o "arquiteto de computadores" seria o cara que faz o projeto dos gabinetes do computador. Claro que tive então de dar uma clara explicação acerca da função do "computer designer", o qual não chega bem a ser um designer do ponto de vista da criatividade artística, apenas da técnica.

Mas, como todo bom "aspirante" a computer designer, tenho minha veia artística e uma das coisas que gosto de explorar, de vez em quando, é o design de objetos. O último feito (já tem até mais de 1 ano) foi um porta CDs que mostro nas fotos a seguir.

A idéia principal era fazer uma peça que tivesse um ar de leveza, fosse prática, compacta e baseada em materiais baratos e reciclados. Acho que consegui tudo isso. O acrílico que aparece na peça ia para o lixo de uma indústria aqui de Erechim, tendo sido salvo um pouco antes por um outro aluno meu (Obrigado, Mario!). A madeira, um pedaço judiado de compensado que eu tive de sofrer para lixar também estava prestes a ir para o lixo, pois o tamanho reduzido não permitia fazer muita coisa com ela. O PVC que reveste as laterais da base é de antigas capas de apostila de encadernação (algumas da década de 90). A base é giratória e o eixo é resto de um HD velho baleado de computador.

O princípio base do projeto era o de usar a razão áurea, coisa cuja fantástica importância e aplicação na natureza aprendi outro dia. Cor neutra (preto) e transparência, para permitir o uso em qualquer decoração. As curvas tornam o projeto bastante agradável aos olhos e o eixo de HD é tão leve que faz o porta-cds girar por um tempão.

Outra hora eu trago outros objetos de design que eu andei bolando ou até mesmo umas novas idéias...

10 agosto 2006

Feito nas coxas

Bem, cada aula que um professor dá (o mais correto seria "troca") é, no meu caso, totalmente imprevisível. Os assuntos surgem em profusão e podemos falar de coisas tão distintas como escravidão e registradores de computador. E é aí que reside a riqueza da experiência da comunicação humana. Claro que dentro de padrões mínimos de organização dos assuntos.

Com relação às duas palavras que mencionei antes, a primeira palavra talvez todo mundo saiba o que é, mas a segunda nem todos. Esses tais registradores são componentes de hardware encontrados em diversos elementos de um computador, principalmente no processador que o comanda. Bem, mas como essas duas palavras tão divergentes se "uniram"?

Falávamos, numa aula de Arquitetura de Computadores, em que estudamos o projeto de computadores (não do design do gabinete), de seus componentes de hardware, sobre os princípios de projeto. Um dos princípios mais importantes é o da SIMPLICIDADE. "A simplicidade favorece a regularidade" é o princípio tão importante num projeto.

Como exemplo de simplicidade, usada na engenharia civil, temos os tijolos. A partir de um projeto simples e básico, podemos construir desde uma lareira até um arranha-céu. Do tijolo fomos para as telhas... Daí foi quando lembrei de certa vez que fui a uma cidade do nordeste, mais exatamente Porto Seguro. Numa visita guiada pelo centro histórico, vimos algumas casas que preservavam ainda umas poucas telhas originais do tempo da colônia.

Essas telhas eram irregulares, de tamanhos variados e a explicação do guia foi que elas eram moldadas nas coxas dos escravos. Obviamente como cada escravo tem uma coxa diferente do outro e a pele é macia, as telhas nunca ficavam exatamente iguais, mas com algumas ondulações e tamanhos diferentes. Ao montar o telhado, ficava uma coisa meio desorganizada, com aparência de mal feito, algo que para nós hoje é chamado de "feito nas coxas". Essa expressão ficou então como sinônimo de coisa mal feita, feita sem cuidado, sem zelo.

Taí porque é importante estudar Ciência da Computação ao invés de ficar somente num conhecimento empírico, típico do "fuçador". A Computação no mundo moderno não aceita coisas feitas nas coxas.

07 agosto 2006

Momento REORGANIZA

Bem, em início de segundo semestre e "quase reformas" em casa, estou um pouco sem tempo/inspiração para escrever no blog... Nada de estresse, mas pra escrever "meia-boca", acho melhor nem escrever...

Logo aos poucos vou voltando com alguns escritos e alguns "designs"...

17 julho 2006

Os Sem-Floresta

Over The Hedge. Os Sem-Floresta. Esse é o desenho. Muito show!!! Bem, eu não precisaria dizer mais nada, mas acho que não é assim que se fala de um filme. Poucas vezes vi um desenho/filme/documentário com um humor tão refinado. "Over The Hedge" é a crítica mais inteligente, produzida recentemente, sobre o estilo de vida consumista dos estadunidenses.

Disfarçado de desenho-engraçadinho-com-um-monte-de-bichinhos-fofos-e-graciosos, "Os Sem-Floresta" é isso mesmo, mas é também mais, e vai direto na ferida do consumismo desenfreado que assola os Estados Unidos. A sociedade neo-burguesa, capitalista, alheia às mazelas sociais do país, isola-se em seus guetos chamados "subúrbios" (lá o subúrbio é uma coisa boa), destroe o restante de matas que rodeia as grande metrópoles e inunda o país com seu lixo de embalagens e restos (não tão inúteis). Isso tudo sem falar no industrialismo que cria geringonças "super ultra inúteis consumidoras de energia não renovável".

O filme também tem um pouquinho de Brasil sim. Tem o guaxinim malandro que adora tirar vantagem dos outros e tem um certo "jeitinho" de fazer tudo parecer "correto" e "honesto". O filme é bom, pra não dizer ótimo. As crianças vão adorar, os adultos ainda mais. Impagável é a cena-clímax do esquilo viciado em cafeína!!!

14 julho 2006

Facções criminosas: públicas ou privadas?

Sou paulistano. Até pouco tempo não gostave de ser chamado de paulista, porque todo mundo que mora no ESTADO de São Paulo, e sempre houve uma rixa entre campineiros e paulistanos. Bobagem pura. tenho orgulho de ser paulistano e paulista. Mas nos últimos dias tenho tido vergonha de ter alguns conterrâneos como Geraldo Alckmim.

O que fizeram ao meu estado natal? o que fizeram com a terra da garoa? O que fizeram com a terra que move os fundamentos da riqueza nacional? Um estado a beira do caos, tomado pela marginalidade. É difícil crer que tanta gente está sendo morta e tanto patrimônio público e privado está sendo depredado sem nenhuma reação de um governo fraco, impotente e incompetente.

São dados do jornal Folha de São Paulo: desde 12 de maio, 373 atentados, 42 membros das forças de segurança e 4 civis mortos, sem falar nos 92 mortos ligados às facções criminosas. O PSDB recusa de forma veemente a ação da Força Nacional, Lula insiste em oferecer uma força inepta e fágil para deter uma onda criminosa de um dos grupos mais bem estruturados da história do país.

O que vemos, na verdade, é um embate, vazio de propósitos e ações eficientes, pelas urnas e os votos cintilantes do próximo pleito. É importante que vejamos seriamente quem desejamos para o nosso futuro e da república: um PSDB que sucateia e deixa São Paulo definhar nas mãos do crime organizado (demonstrando conivência e até mesmo cumplicidade) ou um PT já tão carcomido por todas as denúncias de corrupção e desmandos políticos.